CHICO MARQUES COMENTA 3 PICADINHOS MUSICAIS PRECIOSOS QUE PASSARAM MEIO BATIDOS NO ANO QUE PASSOU, MAS QUE THE BORA BORA REVIEW RESGATA POR AQUI
JONI 75 A BIRTHDAY CELEBRATION
Joni Mitchell
(Rhino Records)
Que Joni Mitchell é a cantora e compositora mais notável de sua geração, isso é ponto pacífico. Com mais de 50 anos de carreira e uma sequência espetacular de 20 LPs de estúdio e 3 gravados ao vivo, Ms. Mitchell trouxe para a folk music uma maneira toda própria de compor e cantar canções confessionais que conseguiam captar todo o zeitgeist dos Aos 60, 70 e 80, além de fazer experiências musicais com jazz e vários outros segmentos musicais. Da virada do século para cá, quando começou se sentir tolhida pelos sintomas terríveis da Esclerose Múltipla dificultando sua maneira de se expressar artisticamente, ela se retirou para se cuidar – ao menos, até tentar descobrir alguma maneira de voltar à cena. De lá para cá, sempre que se sentiu melhor, nos brindou com discos belíssimos como “Travelogue” (2002) e “Shine” (2007), ambos em tom menor, com jeitão de discos de despedida. Mas “Joni 75”, definitivamente, não tem este tom. Gravado ao vivo em duas noites de Novembro do ano passado no The Music Center, em Los Angeles, reúne um elenco de grandes estrelas ao redor do repertório grandioso de Mr. Mitchell – entre eles, amigos de longa data como Emmylou Harris, James Taylor, Graham Nash e Los Lobos, e também artistas que nunca tiveram relações de amizade com ela, como Seal, Rufus Wainwright e Glen Hansard. Os destaques vão para a gravação soberba de Diana Krall para “Amelia”, o dueto belíssimo de Kris Kristofferson e Brandi Carlysle em “A Case Of You”, e a espetacular releitura de Chaka Khan para “Help Me”. Joni participou diretamente da pré-produção e da pós-produção do disco decorrente desses dois concertos em sua homenagem. Subiu ao palco só no final, e permaneceu na plateia recendo as honras dos amigos e colegas – todas elas merecidíssimas.
IF YOU’RE GOING TO THE CITY
A Tribute to Mose Allison for Sweet Relief
(Fat Possum Records)
Sweet Relief Musicians Fund é uma entidade criada na década de 1990 para dar suporte financeiro para artistas e trabalhadores da Indústria Fonográfica com problemas de saúde e com idade avançada. Em outras palavras, ajuda músicos que precisam de ajuda. Suas atividades ganharam vulto mundial na segunda metade dos anos 90 com dois cds repletos de participações estelares dedicados às obras de dois grandes artistas – a cantora e compositora Victoria Williams, que tem esclerose múltipla, e o cantor e compositor Vic Chessnut, que tem quadriplegia – e garantiram a ambos um tratamento médico mais do que digno. Nos últimos vinte e poucos anos, a entidade se reinventou de outras maneiras, mas seguiu firme e forte em seus propósitos com projetos menos personalistas. E agora volta com o terceiro volume de seus cds tributo, dessa vez dedicado a um artista falecido em 2016 aos 89 anos de idade: o fabuloso cantor e compositor de jazz & blues Mose Allison. “If You’re Going To The City – A Tribute to Mose Allison for Sweet Relief” reúne 15 de suas composições mais marcantes em reinterpretações de alguns dos artistas que foram mais influenciados por sua obra. Bonnie Raitt, Jackson Browne, Chrissie Hynde, Loudon Wainwright III, Taj Mahal, Peter Case, Frank Black, Dave & Phil Alvin, Richard Thompson e vários outros fazem parte do elenco estelar do disco, com colaborações afetivas deliciosas. Mesmo assim, eu destacaria dois números sensacionais: a regravação de Taj Mahal para “Your Mind is on Vacation”, que abre o disco, e a faixa título “If You’re Gong To The City” na voz gutural do neo-chansonier Iggy Pop. Disco magnífico, parceria do Sweet Relief com a Fat Possum Records. Compre. Ajude. Como diz o próprio slogan da entidade: “Recebemos tanto desses músicos, é hora de darmos algo em retorno”
MOTOWN UNRELEASED 1969
(Motown Records)
A Motown nunca foi uma gravadora chegada a sutilezas. Todos os grandes artistas que faziam parte de seu cast eram verdadeiros working class heroes, e não tinham moleza: batiam ponto quase diariamente por lá. Se algum dos compositores que trabalhavam na casa mostrassem alguma canção nova para o patrão Barry Gordy, ele na hora definia quem iria gravá-la primeiro, e, se desse tudo certo, em poucos dias a gravação saía em compacto e era acionada toda a máquina promocional da Motown para fazer com que o single em questão emplacasse nas rádios e nas paradas. Claro que nem sempre o artista escolhido por Mr. Gordy acertava a mão na gravação, e aí ele escolhia algum outro artista do elenco da gravadora para tentar uma outra gravação daquela mesma música até dar sua aprovação. Ou seja: a alcunha The Music Factory não era à toa. Nesses últimos anos, muitas gravações inéditas dos arquivos da Motown tem sido lançadas em antologias montadas a toque de caixa, para evitar que caiam em Domínio Público ao completar 50 anos. No final do ano passado, saiu mais essa “Motown Unreleased 1969”, com 60 gravações daquele ano que permaneciam inéditas. Tem coisas muito legais entre elas: as primeiras gravações de Valerie Simpson como cantora, as primeiras gravações solo de Yvonne Fair, um dueto inusitado (e brilhante) de Stevie Wonder com Jr Walker & The All Stars, uma gravação curiosa de “You Really Got A Hold On Me” com Bobby Taylor e The Jackson Five, e até gravações dos primeiros artistas brancos contratados pela gravadora, como as cantoras Chris Clark e Kiki Dee, e também o cantor Michael Denton. Ou seja: das 60 gravações inéditas agrupadas em “Motown Unreleased 69”, metade vale a pena. E, dessa metade que vale a pena, pelo menos 20 gravações são de primeira grandeza, o que já torna o pacote bastante atraente para os fãs da gravadora. O resto é curiosidade.
Chico Marques é um iconoclasta
desde a mais tenra idade.
Nascido em Santos em 1960,
estudou Literatura Inglesa
na Universidade de Brasília,
atuou como publicitário
e foi produtor musical
em emissoras de rádio e TV.
Vive na Polinésia Francesa,
onde trabalha como editor
de THE BORA BORA REVIEW
e de ALTO&CLARO.
e de ALTO&CLARO.






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