A Indústria Fonográfica está em crise há exatos 22 anos. Mas vai bem, obrigado. Encurralada entre a pirataria dos CDRs vendidos nas esquinas e o compartilhamento de arquivos MP3 via Napster e AudioGalaxy, ela foi obrigada a se remodelar, restabelecendo prioridades e passando por uma lipoaspiração drástica para conseguir sobreviver num mercado que não comportava mais o gigantismo das investidas promocionais de outras épocas.
Foi então a Indústria Fonográfica descobriu duas coisas muito interessantes (que todo mundo já sabia, menos ela). Coisa #1: suas geladeiras de tapes velhos eram verdadeiras minas de ouro, bastaria rematrizá-los e desenvolver embalagens atraentes para criar novos produtos de gabarito. Coisa #2: passaram a investir em reedições bem cuidadas, nos mais diversos formatos, dos discos clássicos de seu catálogo, pois perceberam que elas tinham um apelo irresistível para consumidores de música de diversas faixas de público.
O fato é que a outrora toda-Poderosa Indústria Musical encolheu muito. Mas estabilizou. E agora volta a crescer, reformatada, em taxas modestas e com atitudes mais pé no chão. Vamos comentar hoje 5 lançamentos (ou relançamentos) muito interessantes que tem a ver com este momento e esta nova atitude da Indústria, resgatando material de arquivo dos Anos 1950, 1960 e 1970.
MICK RONSON
Only After Dark – The Complete Mainman Recordings
Cherry Red Records (4CDs)
Mick Ronson nunca pretendeu ser um artista solo. Sempre gostou mesmo é de ser sideman, que fazer parte de bandas de amigos, de estar no estúdio ou na estrada. Mas o caso é que ele sempre foi um band-leader natural nos Spiders From Mars, e tanto Bowie quanto Tony Visconti achavam a falta de ambição dele um desperdício enorme. Em 1973, quando Bowie anunciou que iria seguir sem os Spiders após as gravações de Pin-Ups, se apressou em dar encaminhamento com Tony Visconti num projeto solo para seu relutante amigo Ronson. Os três gravaram juntos um LP sensacional (“Slaughter On 10th Avenue”) em apenas 3 semanas, na pressão, e os resultados foram muito satisfatórios, agradando crítica e público. Pois Ronson pegou gosto pela coisa. Nos meses seguintes, se enfurnou em estúdios com músicos amigos para esboçar, sem a menor pressa, o que viria a ser seu segundo LP, Play, Don’t Worry. Produziu um material extenso e precioso, suficiente para sabe-se lá quantos LPs mais. Mas então, recebeu um convite do amigo Ian Hunter, que acabara de sair do Mott The Hoople e precisava de um escudeiro, parceiro musical e band-leader. Aceitou no ato, desistindo de sua carreira solo recém-iniciada e voltando ao que mais gostava de fazer. Only After Dark, resgata justamente essa temporada de dois anos como artista solo, mesclando seus 2 LPs clássicos com uma infinidade de gravações surpreendentes num pacotaço com 4 CDs e um livreto com informações preciosas da época. Para alguns pode parecer um exagero. Mas para quem, como eu, acompanhou a carreira dele ao lado de David Bowie e Ian Hunter, até sua morte em 1993, acredite: é um Plus extremamente bem-vindo.
FLAMIN’ GROOVIES
Between The Lines – The Complete Jordan & Wilson Songbook 1971-1982
Grown Up Wrong Records (1CD)
Dá pena dos Flamin’ Groovies. São uma das bandas mais injustiçadas da História do Rock Americano. Com uma trajetória confusa e uma discografia completamente atrapalhada, eles vieram de San Francisco, California, e imitavam os Rolling Stones de uma maneira muito peculiar entre 1965 e 1968. O EP de estreia deles, Sneakers, gravado às próprias custas em 1968, é um clássico do garage-rock e um dos tesouros escondidos mais preciosos da época. Entre 69 e 71, a banda, sob o comando do guitarrista (recém-falecido) Roy Loney, conseguiu gravar 3 LPs quase tão selvagens quanto o trabalho do MC5 na época, mas que passaram desapercebidos do público americano -- não do público europeu, que sempre os prestigiou. Então, em 1972, Loney deixou a banda, que ficou à deriva por algum tempo, procurando novos integrantes e tentando encontrar uma nova identidade musical. Depois de dar muito com a cabeça na parede, trombaram com o guitarrista e produtor Dave Edmunds pelo caminho, e, com a ajuda dele, gravaram 3 LPs sensacionais para a Sire Records, com uma levada mais power-pop, que tiveram boa acolhida de crítica e público, para depois sumirem do mapa novamente. Agora, os integrantes remanescentes dos Groovies reuniram as 25 canções originais de autoria dos guitarristas Chris Wilson e Cyril Jordan gravadas entre 1971 e 1982, e lançaram essa antologia impecável intitulada Between The Lines, um retrato impecável do que a segunda formação da banda produziu de mais relevante. Sem contar que é uma tentativa de botar um pouco de ordem na discografia e no precioso legado musical deles. Indispensável.
CHET BAKER
The Legendary Riverside Albums 1958-1959
Craft Records (5 CDs)
Pode parecer meio redundante para quem já possui a caixa com 4 CDs The Pacific Jazz Years – e talvez até seja. Mas o fato é que qualquer coisa que Chet Baker produziu durante a década de 1950 tem a sua relevância. E essa caixa com 4 CDs clássicos do Rei do Cool Jazz (mais um 5º com gravações esparsas daquela época) tem lá os seus encantos. Traz um álbum vocal delicioso chamado It Could Happen to You, com uma delicadeza pop que falta à imensa maioria das gravações de Baker como cantor nos anos seguintes. Traz também um álbum ao vivo impecável, Chet Baker In New York, onde ele divide a cena em grande estilo com o magnífico saxofonista Johnny Griffin, além do baixista Paul Chambers e do baterista Philly Joe Jones -- ambos recém-fugidos do Quinteto de Miles Davis. Mas a grande estrela do pacote é Chet, gravado com o pianista Bill Evans e o saxofonista Pepper Adams, que resultou num encontro absolutamente sublime e único. Os últimos dois CDs do pacote são meio dispensáveis: um é dedicado ao repertório de Lerner & Loewe -- provavelmente uma imposição da gravadora para faturar em cima do sucesso de My Fair Lady -- e o último é um apanhado de gravações perdidas, na maioria outtakes de It Could Happen To You. De qualquer maneira, foram momentos derradeiros na carreira de Chet. Enroscado com drogas e problemas com a Justiça, Chet passaria toda a década de 1960 produzindo LPs horrendos e indignos do seu talento. Só em meados dos Anos 70, voltaria a gravar discos relevantes. Meu conselho? Façam de conta que é uma caixinha com apenas 3 CDs (e não 5), e levem para casa The Legendary Riverside Albums 1958-1959. Chet merece.






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